terça-feira, 16 de agosto de 2011

Thus spoke Zarafalse

O oposto da verdade não é a mentira. Há mentiras que contribuem para a Verdade. O imperativo ético da Verdade não possui contraeconomia. É absoluto. As demais éticas, quando entram em conflito com a verdadeira verdade não passam de etiqueta. A Verdade em Amor está acima dos legalismos dos manuais doutrinários. O oposto da mentira é a realidade. A descrição minuciosa desprovida de qualquer imaginação é a realidade tomada como verdade. Esta verdade menor, quando tomada como imperativo ético institucionaliza as pessoas e as priva de bom senso e criatividade. O mentiroso agiganta-se diante da mediocridade do legalista. Não é de se admirar que haja tantas pessoas que acreditem nos mentirosos, pois estes, ao fertilizarem a realidade segundo a própria vontade, a povoa de mistérios e a torna interessante. Para mentir é necessário inteligência, imaginação e criatividade. Mentir é próprio dos gênios e dos artistas. A mentira é fecunda de novas mentiras e, frequentemente, tomada pelo crédito das massas, torna-se verdade. Não a verdade verdadeira, mas a verdade real, a adaptação e reinterpretação da realidade transformada em verdade. A Verdade, mesmo quando professada pela boca do mentiroso, não deixa de ser Verdade. Mas a verdade forjada pela astúcia e inteligência do mentiroso, mesmo unânime, não é absoluta. Porém, sendo a Verdade tão invisível e esguia ao nosso entendimento, é preferível ser o senhor da própria verdade do que viver sem imaginação. O chamado à verdade legalista é o fim da inteligência e a reprodução dos automatismos da rotina. O hiperrealismo como meta ética e sinônimo da verdade é a morte da alma. É irônico que a mentira, tão mal afamada, seja ao mesmo tempo um estímulo à inteligência e tenha tantos seguidores, que pelo consenso, a tornam real, e portanto, verdade. A mentira inaugura novos tempos e dimensões à realidade. Reorienta a crença das pessoas. Mentir não é fácil demais, apesar das conveniências. A mentira exige labor mental. A descrição estéril da realidade é coisa de preguiçosos. Poderia ser feita por um robô.

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Ode démodé à mulher amada

Eu amo a mulher com alma. A mulher triste. A mulher triste com seus encantos de mulher. Beleza e tristeza. Par antinômico. Contradição para a beleza, mas truísmo para a tristeza. Maior engano não há para quem enxerga na beleza a promessa de felicidade, exceto, talvez, na própria beleza um amparo melhor, porque a beleza alheia certamente é triste como uma despedida. Como pode a mulher bela ser triste quando lhe pululam ilusões? Ou como podem ser alegres os olhos de quem apenas olha a beleza? Por isso mesmo somente a mulher com alma compreende a tristeza da condição da beleza e se desvencilha das ilusões para questionar o que é o amor.

O zen ocidental

Isso de não querer um amor para conseguir o amor; não querer dinheiro para conseguir dinheiro ou ainda de escrever algo simples para alcançar o grau último de sofisticação, esse tal orientalismo do pensamento é um auto-engano tão banal quanto a psicologia do contra. Quem retribui é o acaso e isso sim é um salto no escuro.

quarta-feira, 14 de julho de 2010

Novo Blog

Olá (para quem lê este blog),
O semestre foi muito corrido e meu tempo acabei dedicando a outras coisas, abandonando parcialmente este blog. Aproveito o tempo das férias para informar que abri um novo blog (se me falta tempo para um blog, por que já não ter dois de uma vez?)
é o endereço do novo blog, que se chama SOCIAIS. Voltado para o amplo sentido do que se entende por sociais, tem um tom mais acadêmico e pretende disseminar conhecimento através de fichamentos e ensaios. Tem também o intuito de adquirir conhecimento pela socialização com pessoas afins na área. Espero que seja proveitoso.
Quanto a este blog, estou a me deixar inspirar para escrever nova crônica.
Abraços a todos,

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Amor e exílio

Em Amor e Exílio, Isaac Singer conta que seu primeiro amor foi com uma mulher mais velha. Após terminarem, ele diz ainda que ela sabia desta inevitável e traumática separação.

Resultado: ele conclui que o amor não pode ser encarado como um jogo ao constatar face a face que o amor nela havia gangrenado.

Num esforço de alteridade, imagino o outro lado da história. De fato, ela sabia o risco, não: a fatalidade que a esperava no relacionamento. Ainda assim, permite-se apaixonar novamente. Sabia que satisfaria todo o sexo de que ele era capaz, e que no momento em que ele ficasse satisfeito ficaria insatisfeito e confirmaria a experiência dela na experiência dele.

Por que então, cônscia disso, ela permite confundir sua tragédia com farsa? Por que se apaixonou novamente e não conseguiu mais se apaixonar? Qual a razão da última pétala ser mal-me-quer? Down in Love in down?

domingo, 15 de novembro de 2009

O Grande Ditador

Não devemos iniciar uma conversa pela crítica. Vou procurar ser coerente com este axioma. Devemos primeiro apresentar o que há e ocupar-nos de sua apologia. É preciso reconhecer que todo discurso tem raiz a partir do que existe. Devemos ser gratos a esta materialidade que nos faz a consciência. Temos dívidas com nossos antepassados que sustentaram a sociedade até aqui, lugar de onde proferimos nossos discursos. Temos de pagar com gratidão moral aos Estados despóticos da Antiguidade, pois foram eles quem lançaram as bases de nossa tão alardeada cultura moderna, onde há, inclusive, lugar para a crítica irresponsável.


Atualmente, é comum nossos eruditos julgarem pejorativamente o Estado forte e despótico. Cospem em seus ancestrais e desdenham das tradições erigidas para nossa proteção. Nossos sábios convenientemente ignoram as condições sociais de onde originam seus discursos, a soberania que ampara a existência deles e que permite inclusive a ociosidade de sua ingratidão. Estes irresponsáveis procuram confundir a massa com promessas ocas firmadas no vento. Em suas poltronas, engendram utopias sem provar do salgado suor que foi necessário para a construção de suas poltronas. Aclamam uma fácil liberdade de consciência como se pudessem criar com palavras um novo mundo em sete dias.


A aclamada liberdade de discernimento é um fardo para o indivíduo. Este busca referência e liderança. Busca antes a satisfação imediata do necessário à sua sobrevivência. Deixados a céu aberto, os indivíduos revelam despudoradamente sua natureza egoísta e tiranizavam-se arbitrariamente, sem proveito algum. É preciso a tirania que traga proveito, civilização. É preciso a pedagogia da violência, onde o braço profano coage para a ordem e desenvolvimento. Urge que uma mão forte e um braço profano conduzam todas essas crianças e gente doente. Eles necessitam de um poder carismático e de uma liderança, porque não sabem conviver uns com os outros. É preciso reforçar a moral, a ordem, os meios coercivos, a autoridade, a hierarquia e as tradições. Deve-se ser diretivo e imperativo primeiramente.


Vejam os estragos que uma pequena abertura democrática já gerou! Vivemos um estado de anomia social e putrefação moral. Ficamos reféns de um aparato burocrático ocupado por especialistas em criar entraves e vias legais de corrupção. Coroamos nossas crianças pela supercidadania, ao mesmo tempo em que condenamos nossos velhos ao ostracismo. Ensinamos a elas a desobediência e o questionamento sem que elas conheçam o que questionam e desobedecem. Em nome da liberdade de direita e da igualdade de esquerda, a população faz somente consumir sem produzir. Exaltamos o desconstrutivismo como píncaro do conhecimento. E seguem desconstruindo o que foi sedimento e pago com o sangue das civilizações. Estamos em via de uma civilização sem cordão umbilical, parricida e matricida. E é contra este passado não mais presente, que nossos intelectuais bradam ideologicamente, no contrasenso da promoção da antítese de uma tese já extinta. E, indiferentemente ao povo pelo qual fingem agir em seu interesse, condenam estas crianças tolas e moribundas a celebrarem a miséria de uma liberdade para a morte. No fundo dizem - Sejamos orgulhosos em desdenhar da civilização que nos conduziu até aqui, o que tem ela a nos ensinar? Faremos algo melhor sem esforço, pois como por mágica nossos insultos à sociedade de então se converterão em paraíso.


É preciso recrudescer a tese e criar calos nas mãos dos sábios.

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

O ocaso vazio

No bonde não havia assentos vazios. Havia dezenas de pessoas em pé. Estava cheio, mas não insuportavelmente cheio. As pessoas em pé dispunham-se lado a lado ou coladas aos intervalos de paredes sanfonadas do veículo. Esticavam seus braços junto aos canos de apoio suspensos sobre suas cabeças. Fitavam o nada, ou por através, como garçons alheios. Entre elas havia uma menina por volta de seus dezesseis anos, mas que aparentava catorze dado o brilho de seus olhos escuros como uma bola 8 e à delicadeza de sua pele de tulipa. Usava cabelos compridos, lisos e castanhos. Era magra, mas de seu corpo brotavam femininas sinuosidades. Vestia tênis, jeans branco e um top preto, que deixavam nus seus ombros ossudos e a saboneteira de suas clavículas. Chamava-se Talita e possuía uma beleza comum. Entre os braços esticados no interior do ônibus, seus olhos encontraram, a poucos metros de distância, os olhos de Roberto, vizinho do seu bairro. Fitavam-se fugazmente, no ritmo desafinado do veículo, entrecortados pelo movimento dos passageiros. Apesar de reconhecerem um ao outro, o olhar não mais suscitava simpatia, mas sedução.

Na semana seguinte, em ocasião semelhante, desceram no ponto final e caminharam juntos até suas casas. Conversaram banalidades disfarçando uma silenciosa concupiscência entre ambos. Antes de aproximarem-se de uma esquina na qual o comércio do bairro cedia espaço à vigilância das residências, ela parou - Não quero voltar para casa agora. Vamos dar uma volta? – Disse olhando-o obliquamente. Dessa vez, usava um batom vermelho-almodóvar, que alienava sua boca do corpo e da idade.


Ele sabia que este era o momento para beijá-la. Ao seu instinto somava-se sua vontade, mas hesitava, afinal tinha 30 anos e aparentava mais com seus óculos Armani e sua barba por fazer. Roberto reprovava a hipocrisia, mas não conseguia ser sincero consigo mesmo, simplesmente por conter inúmeras contradições dentro de si. Roberto era alto, magro e displicente. Não sabia como acomodar a manga da camisa no casaco, nem a tristeza no olhar, mas sabia que este beijo era uma afronta à consciência coletiva da sociedade. Se se vislumbra a vida diante da morte, diante daquele olhar Roberto contemplou toda sua escassa vida amorosa, suas oportunidades desperdiçadas e seus desejos reprimidos.

Deliberadamente a beijou. Seus corpos eram garrafas de coquetel-molotov estouradas. A despeito de seu pensamento de que aquilo não era certo, seus dedos percorreram os cabelos esguios dela, infiltrando-se em sua nuca; seguiram dos ombros até suas costas, passando sobre o fecho do sutiã e, ao concentrarem-se em seu estreito quadril, como num passo de dança ela girou o próprio corpo em meia volta contra seu membro já rijo. Enquanto lambia dentro de sua orelha e acariciava seus pequenos seios, Roberto flagrou-se oniricamente e, aturdido pela surrealidade da cena na qual seu duplo representava a satisfação de seus anseios, acabou por interromper seu êxtase. Às pressas, puxou a moça para junto de si e, a passos largos e de mãos dadas com ela, fugiu enrubescido e com medo.

Talita, por não compreender que aquela situação se desfazia no ar, mostrava-se insuportavelmente afetada, como uma recém-casada. Assim como a Índia perdera seu encanto de ilha na formação do Himalaia, Talita perdera o fascínio de ser a tautologia de si ao tornar-se uma península conhecida em seus relevos. Roberto não só havia saciado o desejo evocado por aquele corpo liso provando seus vazios, como havia virtualmente visto a satisfação de seu desejo. O fascínio que Talita incitou não era mais páreo para o pleonasmo de sua autosatisfação perversa. Nós amamos sempre aquilo que nos exclui.

Ao seguirem rumo às residências, Talita percebera o rubor sobre Roberto e pôs-se num monólogo sobre não se ter idade para vivenciar relacionamentos, pois estava confiante em ser esta a causa do embaraço. Roberto pensara ter visto sua mãe na esquina da calçada oposta, mas era apenas uma idosa vizinha que os observava. Sentiu-se vigiado. Vigiado e julgado, pois que o olhar dos outros, para além de seu corpo de mãos dadas com a menina, recaía sobre sua paixão, pulsão e inadaptação, insinuando uma anátema índole pedófila, ainda que ele mesmo soubesse que tudo ocorreu de modo tão ambíguo que poderia parecer que fora ele o seduzido pela menina. Compreendendo-se vigiado e julgado, entendia também que cabia a si a punição sobre si, como quando o algoz entrega a arma para o réu cometer suicídio, posto que nossa subjetividade deva refletir o olhar normalizador.

Absorto, incomunicável, solitário e miserável, era como se o oxigênio fosse um gás nocivo. Roberto reprovava a si mesmo e desprezava o agora olhar naïf de Talita. Sentia-se repugnante depois de ter atingido a pletora do que de mais soberbo oferecia a situação e, após deixar Talita na esquina de casa, sem esperança, na hora do crepúsculo, hora de ninguém, foi atropelado ao atravessar a rua, beijando com sangue o asfalto.