Na semana seguinte, em ocasião semelhante, desceram no ponto final e caminharam juntos até suas casas. Conversaram banalidades disfarçando uma silenciosa concupiscência entre ambos. Antes de aproximarem-se de uma esquina na qual o comércio do bairro cedia espaço à vigilância das residências, ela parou - Não quero voltar para casa agora. Vamos dar uma volta? – Disse olhando-o obliquamente. Dessa vez, usava um batom vermelho-almodóvar, que alienava sua boca do corpo e da idade.
Ele sabia que este era o momento para beijá-la. Ao seu instinto somava-se sua vontade, mas hesitava, afinal tinha 30 anos e aparentava mais com seus óculos Armani e sua barba por fazer. Roberto reprovava a hipocrisia, mas não conseguia ser sincero consigo mesmo, simplesmente por conter inúmeras contradições dentro de si. Roberto era alto, magro e displicente. Não sabia como acomodar a manga da camisa no casaco, nem a tristeza no olhar, mas sabia que este beijo era uma afronta à consciência coletiva da sociedade. Se se vislumbra a vida diante da morte, diante daquele olhar Roberto contemplou toda sua escassa vida amorosa, suas oportunidades desperdiçadas e seus desejos reprimidos.
Deliberadamente a beijou. Seus corpos eram garrafas de coquetel-molotov estouradas. A despeito de seu pensamento de que aquilo não era certo, seus dedos percorreram os cabelos esguios dela, infiltrando-se em sua nuca; seguiram dos ombros até suas costas, passando sobre o fecho do sutiã e, ao concentrarem-se em seu estreito quadril, como num passo de dança ela girou o próprio corpo em meia volta contra seu membro já rijo. Enquanto lambia dentro de sua orelha e acariciava seus pequenos seios, Roberto flagrou-se oniricamente e, aturdido pela surrealidade da cena na qual seu duplo representava a satisfação de seus anseios, acabou por interromper seu êxtase. Às pressas, puxou a moça para junto de si e, a passos largos e de mãos dadas com ela, fugiu enrubescido e com medo.
Talita, por não compreender que aquela situação se desfazia no ar, mostrava-se insuportavelmente afetada, como uma recém-casada. Assim como a Índia perdera seu encanto de ilha na formação do Himalaia, Talita perdera o fascínio de ser a tautologia de si ao tornar-se uma península conhecida em seus relevos. Roberto não só havia saciado o desejo evocado por aquele corpo liso provando seus vazios, como havia virtualmente visto a satisfação de seu desejo. O fascínio que Talita incitou não era mais páreo para o pleonasmo de sua autosatisfação perversa. Nós amamos sempre aquilo que nos exclui.
Ao seguirem rumo às residências, Talita percebera o rubor sobre Roberto e pôs-se num monólogo sobre não se ter idade para vivenciar relacionamentos, pois estava confiante em ser esta a causa do embaraço. Roberto pensara ter visto sua mãe na esquina da calçada oposta, mas era apenas uma idosa vizinha que os observava. Sentiu-se vigiado. Vigiado e julgado, pois que o olhar dos outros, para além de seu corpo de mãos dadas com a menina, recaía sobre sua paixão, pulsão e inadaptação, insinuando uma anátema índole pedófila, ainda que ele mesmo soubesse que tudo ocorreu de modo tão ambíguo que poderia parecer que fora ele o seduzido pela menina. Compreendendo-se vigiado e julgado, entendia também que cabia a si a punição sobre si, como quando o algoz entrega a arma para o réu cometer suicídio, posto que nossa subjetividade deva refletir o olhar normalizador.
Absorto, incomunicável, solitário e miserável, era como se o oxigênio fosse um gás nocivo. Roberto reprovava a si mesmo e desprezava o agora olhar naïf de Talita. Sentia-se repugnante depois de ter atingido a pletora do que de mais soberbo oferecia a situação e, após deixar Talita na esquina de casa, sem esperança, na hora do crepúsculo, hora de ninguém, foi atropelado ao atravessar a rua, beijando com sangue o asfalto.

4 comentários:
Grande Maricón!
Una oz de Truffaut, otra de Nelson Rodrigues, más una ozita de vinozino, otra de Partagás imprensado y surge la cróni... la antícua cronopéia!
Nó emitiré comentários, pues sería desonesto, deselegante y nada digno de un hombre sensual, una vez que ya habia leído los manuscritos en cuanto tu los escribía.
Pero, muy bueno lo fin. Lleno de sangre!
Besos,
Maurizio Di Vino Veritas
Olá boiolon,
Vou considerar sua falta de comentário sinônimo de jogar confetes se o fizesse, portanto, seu silêncio eloquente fora confetes eufemísticos!!!
A ostra de vinozino é viosinho, se se refere à piada pronta da cepa de portugal.
Para você que adora o tempo chuvoso de curitiba, poderíamos aproveitá-lo para rapidamente dividirmos um pastelavesseiro na tia masako amanhã, lá pelas 13h, q tal? Eu levo um celular tocando axel rose para você matar saudades.
Besos idem,
Alisson, the sensual man.
Falta sutileza,eu preferiria que você insinuasse mais as coisas ao invés de explicar tanto.
Ola Claire,
Concordo contigo. O irmao do Isaac Singer dava a mesma dica p ele. Indo p final me veio uma veia academica de foucault e tals e acabei misturando as coisas. Q bom q vc leu!
Abraços,
A.
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