O oposto da verdade não é a mentira. Há mentiras que contribuem para a Verdade. O imperativo ético da Verdade não possui contraeconomia. É absoluto. As demais éticas, quando entram em conflito com a verdadeira verdade não passam de etiqueta. A Verdade em Amor está acima dos legalismos dos manuais doutrinários. O oposto da mentira é a realidade. A descrição minuciosa desprovida de qualquer imaginação é a realidade tomada como verdade. Esta verdade menor, quando tomada como imperativo ético institucionaliza as pessoas e as priva de bom senso e criatividade. O mentiroso agiganta-se diante da mediocridade do legalista. Não é de se admirar que haja tantas pessoas que acreditem nos mentirosos, pois estes, ao fertilizarem a realidade segundo a própria vontade, a povoa de mistérios e a torna interessante. Para mentir é necessário inteligência, imaginação e criatividade. Mentir é próprio dos gênios e dos artistas. A mentira é fecunda de novas mentiras e, frequentemente, tomada pelo crédito das massas, torna-se verdade. Não a verdade verdadeira, mas a verdade real, a adaptação e reinterpretação da realidade transformada em verdade. A Verdade, mesmo quando professada pela boca do mentiroso, não deixa de ser Verdade. Mas a verdade forjada pela astúcia e inteligência do mentiroso, mesmo unânime, não é absoluta. Porém, sendo a Verdade tão invisível e esguia ao nosso entendimento, é preferível ser o senhor da própria verdade do que viver sem imaginação. O chamado à verdade legalista é o fim da inteligência e a reprodução dos automatismos da rotina. O hiperrealismo como meta ética e sinônimo da verdade é a morte da alma. É irônico que a mentira, tão mal afamada, seja ao mesmo tempo um estímulo à inteligência e tenha tantos seguidores, que pelo consenso, a tornam real, e portanto, verdade. A mentira inaugura novos tempos e dimensões à realidade. Reorienta a crença das pessoas. Mentir não é fácil demais, apesar das conveniências. A mentira exige labor mental. A descrição estéril da realidade é coisa de preguiçosos. Poderia ser feita por um robô.
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2 comentários:
Tem como dizer a verdade de um jeito assim, que ela fique tão linda quanto a mentira bem contada?
Olá Multiethnic,
Sei que sua pergunta foi retórica, mas me provocou elações.
Acho que Kant implicava a beleza à verdade, mas, se não desconfio do senso moral dele, desconfio do senso estético, e portanto de tudo.
Tanto a Verdade verdadeira quanto a mentira, na medida em que não se confundem com a realidade, são, na minha interpretação de Zarafalse, belas.
Talvez isso levasse a questionar a fotografia ou a literatura realista como uma arte menor, mas penso que a realidade não se confunde com a fotografia da realidade e menos ainda com uma narrativa realista, recrudescendo o vigor dessas manifestações artísticas.
Antes de finalizar, fertilizo sua indagação com novas: será que a mentira mal-contada é feia? Isso me lembra outro pensador que associava estética e moral: Oscar Wilde, quando comentava que coisas mal escritas fazem mal ao caráter.
Ainda, se há mentiras que contribuem para a verdade, será mesmo necessário opor a mentirá à verdade em suas relações com a beleza? Não podem elas ter uma relação complementar? Não seria a "mentira" de O Pequeno Príncipe uma mentira que revela (parcialmente) a Verdade e contribui a seu modo mentiroso de um modo belo para A revelação?
Enfim, interpreto Zarafalse que toda verdade verdadeira é tão bela quanto a mentira (não sei se só a bem, mas desconfio também de que também a mal contada). Talvez mais bela do que a mentira. Mas aí entra outra questão: Bela para quem? Que é a beleza para você e para mim?
Se mantivermos a implicação entre beleza e moral consideraremos qualquer musiquinha dos "bons costumes" tão boa quanto Bach.
Acho que já passei da conta do tolerável com essas elações...
Grande abraço,
A.
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